23º Bienal Internacional do Livro em São Paulo - relançamento de "Wlad - Os Prisioneiros do Destino" e tarde de autógrafos.

Além do relançamento de "Wlad - Os Prisioneiros do Destino", meus outros livros, "A Saga de Orum" e "Os Caminhos de Lumia", também estarão lá, sendo autografados e comercializados.

Espero todos por lá!

Sábado, 23 de Agosto, das 14 às 15:30 horas.

Estarei no Stand da Garcia Edizioni, G - 671.





Procura-se urgentemente...



Procura-se urgentemente alguém que acredite na inclusão.
Alguém que esteja aberto à incluir, a abrigar, a abraçar, a acolher.
Que seja disposto a abrir oportunidades.
Tenha boa vontade para estimular as habilidades de outrem.
Que queira perceber as potencialidades de outro alguém.
Que seja humano.
Alguém que veja além das máscaras.
Que consiga acreditar no outro.
E que acredite em si mesmo.
Alguém que queira assumir desafios.
Que não tenha medo das diferenças.
Mas que seja diferente.
Que não acredite em barreiras.
E que não aceite limites.
Procura-se alguém que confie no brilho do olhar.
Que tenha fé no seu próprio coração.
E que acredite na INCLUSÃO.

O caçador de fantasmas


Enquanto eu andava pelas ruas quase escuras do início da noite, e via o céu tornar-se gradualmente púrpura, ficava imaginando o que aquelas inocentes pessoas imaginavam ao ver um cara como eu atravessando seus bairros pacatos e comuns.
Eu não era alguém que passaria despercebido em uma multidão, não só pela altura extrema, fora dos padrões normais de qualquer homem, tampouco pela roupa gasta, composta por uma calça jeans rasgada e suja, uma camiseta preta desbotada e um casaco longo puído e descosturado em diversas partes. Menos ainda pelos meus cabelos compridos e muito despenteados completando a imagem de um homem extravagante, de barba mal feita, repleto de tatuagens e algumas argolas amontoadas na orelha. Por mais absurdo que possa parecer, isso tudo é o que menos chamava a atenção no conjunto que sou. Acho que o que faz as pessoas me observarem insistentemente é justamente o brilho perturbador do meu olhar. Uma luz assassina e doentia, que emana de minhas pupilas, como querendo devorar qualquer pessoa que cruze meu caminho.
Sempre com minha companheira, a caixa de guitarra de couro desgastado e envelhecido, que tem tudo em seu interior, menos uma guitarra. Esse sou eu no todo. Pelo menos a parte de fora, aquilo que eu apresento ao mundo.
No auge de meus trinta e oito anos, angariei diversos empregos, fui catador de lixo, atendente de supermercado, cuidador de idosos, babá de cachorros, e até lavador de carros. Mas meu último emprego é, sem sombra de dúvidas, o mais rentável.
Mas o que eu fazia naquele bucólico bairro familiar não é realmente importante, e sim sobre como arrumei o melhor emprego da minha vida, aquele que me daria fortuna e vida eterna. Imagina qual seja minha atual profissão? Talvez lhe ocorra que como falei em vida eterna, eu pudesse ser um vampiro ou algo do gênero. Não, não sou nada disso, se eu precisasse deixar de beber meu bom e velho conhaque para viver de sangue, isso já seria a morte para mim. Não meu velho! Eu sou simples e claramente, um caçador de fantasmas.
Como um caçador de fantasmas pode se tornar eterno? Apenas assinando o contrato certo, com o patrão certo. Simples assim!
A eternidade seria apenas um dos muitos benefícios desse emprego. Um salário milionário, acrescido de periculosidade, insalubridade e adicional noturno, plano de saúde e imortalidade. O problema é que eu jamais teria aposentadoria, então envelhecer sentado em uma cadeira de balanço, vendo o que me restava de vida passar diante de meus olhos junto com o sol se pondo, era algo que jamais me aconteceria.
Consegui esse emprego de uma forma tão inusitada quanto são as coisas que caço: fantasmas de psicopatas. Eu sou quase como um agente do FBI sobrenatural. Algo assim, para facilitar sua compreensão. Só que os caras do FBI e outras agências de polícia investigativa sequer imaginam minha existência, menos ainda do meu empregador.
Como disse a pouco, meus empregos anteriores não eram lá grande coisa, mal pagavam meu cigarro, meu conhaque e alguma garota que recebia poucos trocados para que eu não passasse a noite sozinho.
Uma vida triste a vazia. Bom, quanto a isso não houve muita mudança, exceto pelo fato de que o conhaque agora é de primeira e as garotas recebem um cachê melhor para aguentar meu mau humor a noite.
Não sou exatamente um cara desagradável, mas meu nível de intolerância, impaciência, sarcasmo e negligência com a aparência me tornam alguém que poucas pessoas querem por perto. Nem mesmo os fantasmas. Junte-se a isso uma tendência natural para a crueldade.
Em uma daquelas noites em que ia torrar meus últimos centavos com um copo de requeijão cheio de conhaque barato, me deparei com meu patrão sentado no balcão do bar. Poderia passar por qualquer um. Um cara bem comum até. Exceto pelo olhar maníaco, que anunciava às pessoas ao redor para ter cuidado.
Eu o ignorei por completo, estava cansado de trocar as fraldas geriátricas do velhinho que eu cuidava, e queria apenas degustar minha bebida, fumar um cigarro e dar o fora dali o mais rápido possível. O cara ficou me encarando por um bom tempo, enquanto bebia o whisky mais caro do bar, o que me incomodou bastante. Mas não o suficiente para me fazer tirar satisfações com ele, afinal eu já tinha bastante encrenca com a polícia graças às muitas brigas em que me metera.
Saí do bar e segui em direção à pensão onde vivia. Estava um pouco zonzo graças ao estômago vazio e ao álcool recém-ingerido. Minha velha cama cheia de pulgas era tudo o que eu desejava naquele momento. Mas isso estava longe de ser o que eu teria. Após caminhar pelas ruas mal iluminadas, escutei passos atrás de mim. Olhei e o vi. Terno de risca de giz, chapéu coco, lenço no pescoço e sapatos de verniz. Inconfundivelmente era o cara do whisky, que não cansara de me observar no bar.
Aumentei a velocidade da minha caminhada até não ouvi-lo mais atrás de mim, e quando virei a esquina para chegar finalmente na pensão, bati de frente com alguém que caminhava de frente para mim. Meu coração acelerou tanto que pensei que batia na garganta. Não sou do tipo que tem medo de alguma coisa, mas bater de frente  justamente com a pessoa a quem eu acabava de despistar atrás de mim, era algo que faria meus nervos ficarem alertas.
Tentei correr, mas a voz calma e baixa dele me impediram de seguir adiante. Era como um sussurro da noite. Como o sibilar suave da própria morte, a qual ninguém poderia escapar.
- Fred, eu não vou lhe fazer mal. Vou lhe fazer uma proposta.
Continuei calado. Fiquei imaginando que tipo de proposta um homem como aquele poderia me fazer. Obviamente era alguém que tinha muita grana, então imaginei que seria algum tipo de trabalho sujo. No fim das contas não errei em meu julgamento, mas o trabalho sujo que ele me proporia estava longe de ser assassinato por aluguel como imaginei então.
Ele circulou ao meu redor, de olhos baixos, como se ponderasse alguma coisa. Mas o que ele tava fazendo na verdade era avaliar minha alma. Aquela era minha entrevista de emprego. E acho que ele encontrou o que procurava, porque depois de alguns instantes olhou diretamente em meus olhos e disse com a voz sussurrante:
- Você é exatamente quem procuro, quer trabalhar para mim?
Uma proposta de emprego nessa situação era algo muito estranho, e por mais que eu mesmo fosse um cara estranho, de imediato respondi que não. Ocorreu-me todo tipo de crimes: assalto, sequestro, tráfico, assassinato, tortura, entre outros que não ouso repetir. Claro, meu emprego envolveria tudo isso sim, mas não da forma humana, não seria nada fora da lei.
- Deixe-me apresentar – ele estendeu sua mão para mim, retribuí o cumprimento mais por medo do que por educação – sou Baltazar, e tenho um emprego que poderá lhe ser muito vantajoso. Venho acompanhando sua vida há muito tempo. Sei de todos seus problemas financeiros, seus vícios, sua solidão. Mas mais que isso, sei exatamente a alma cruel que vive dentro de você, e é disso que eu preciso.
Bom, lembra-se sobre minha aparência? Quando disse que não representava  o que eu era por dentro? Pois bem. Aquilo tudo estava muito longe de traduzir quem eu era. Eu não sou exatamente mau. Sou apenas cruel. Frio, mesquinho e definitivamente manipulador. Quase um psicopata, mas sem a necessidade de tirar vidas. Esse sou eu, muito prazer, espero que nossos caminhos nunca se cruzem.
Mas meu futuro patrão continuou:
- Eu sou um demônio! Não vou entrar em detalhes quanto a isso porque é relativamente constrangedor ter que explicar sobre anjos caídos e todo o processo para me tornar uma criatura das trevas. Então vou direto ao assunto. Eu também tenho um emprego. Eu torturo e como almas. É, me alimento delas, e por favor não faça essa cara de nojo, elas são saborosas, algumas delas! Mas não qualquer alma. Não as almas de pessoas comuns, não as almas de crianças, nem de velinhas que gastaram sua vida com as coisas comuns do dia-dia. Meu serviço é torturar e comer as almas dos assassinos em série. Os famosos serial killers. Aqueles que escolhem suas vítimas a dedo. Que sequestram, torturam, cortam em pedacinhos e matam lentamente. À propósito estou com um pouco de fome, então, se pudermos resolver isso logo, eu poderia ir jantar.
- E-e-u n-n-ã-ã-o sou as-sas-si-no – gaguejei enquanto meu corpo tremia inteiro.
Ele riu com um pouco de deboche e incredulidade. Na verdade eu nem acreditava naquilo tudo, meu medo era algo que eu não conseguia compreender. Afinal eu tinha uma boa faca na bainha da calça, poderia cometer o erro de roubá-lo e sumir dali. Mas aquele medo era inconsciente e incontrolável. Como se uma parte de meu subconsciente tivesse soltado um alerta geral para meu corpo que de eu estava diante de um perigo iminente. E eu estava mesmo, só não imaginava o quanto.
- Sejamos práticos. Você está quebrado. Eu tenho um bom emprego a lhe oferecer, com benefícios e um ótimo salário. É simples e rápido. E você nem vai precisar mais tolerar os vivos. Basta assinar o contrato, e estamos resolvidos. Você pode começar a trabalhar imediatamente.
- Você-ê-ê vai me ma-ma-tar?
- Não homem – outra gargalhada – estou lhe propondo um emprego, não a morte! Acalme-se, por favor. Leia o contrato e então entenderá o que lhe digo.
Peguei o pergaminho que ele me entregava. Parecia papel velho, daqueles de mapas de piratas de filmes da TV. Estava escrito com caneta tinteiro, de próprio punho, com uma letra bonita e bem delineada. Algo que eu jamais vira na vida. Apesar do medo insistente comecei a imaginar se aquilo não era alguma pegadinha, olhei ao redor para ver se encontrava alguma câmera escondida. Como não encontrei nada, resolvi ler o conteúdo.
“CONTRATO DE AGENCIAMENTO PARA CAPTURA DE FANTASMAS
I – DAS PARTES:
Frederico Barton, brasileiro, residente e domiciliado à pensão de Dona Maria Francisca, doravante denominado CAÇADOR;
Baltazar Dominus, anjo caído, residente e domiciliado no purgatório, doravante denominado CONTRATANTE.
II – DO OBJETO:
2.1 O CAÇADOR se dispõe a seguir pistas, caçar e aprisionar almas transviadas. Aquelas cujos crimes hediondos as impede de seguir o fluxo comum de almas desencarnadas, tornando-os fantasmas psicopatas. Fantasmas assim designados por assassinatos em série, tortura e mutilação de humanos, desmembramentos, pedofilia seguida de morte, requintes de crueldade e demais ações relacionadas.”
Ergui meus olhos sem acreditar no que estava escrito, mas ele me incitou a continuar a leitura. Obedeci mais por curiosidade do que por acreditar naquele papel. As cláusulas seguintes determinavam como a caçada devia proceder, os equipamentos de segurança oferecidos pelo empregador, quais os critérios para a caçada. Os benefícios do meu emprego, entre os quais uma alta soma anual em dinheiro corrente, depositado em uma conta em meu nome e a imortalidade.
Quando terminei soltei uma risada nervosa. Aquele cara pensava que eu era algum tipo de idiota ou coisa parecida? Mas ele pareceu não entender o verdadeiro motivo da minha reação, e se desculpou:
- É, eu sei, o salário não parece muito bom, considerando os perigos aos quais você estará exposto. Mas se você for bom, podemos conversar sobre um aumento daqui três meses. Ah, e sem férias. Não haverá quem o substitua, então não podemos nos dar ao luxo de deixar sua vaga em aberto. Claro, depois de um tempo, se você encontrar alguém que aceite ser seu estagiário, então podemos pensar em uns dias de descanso. Mas não agora, porque há muito trabalho acumulado.
- Você é louco? Fugiu de algum hospital psiquiátrico ou algo do gênero? – só isso que consegui falar.
- Vai assinar ou não? Não tenho tempo a perder com sua incredulidade meu jovem.
Ele parecia mais novo que eu, mas me dei conta de que se ele fosse mesmo quem dizia ser devia ser alguns milênios mais velho que eu. Comecei a imaginar se o barman tinha colocado alguma droga no meu conhaque e eu estava tendo alucinações. Então decidi que quando acordasse nada daquilo teria acontecido. Já que minha mente decidira entrar em colapso graças alguma porcaria que eu ingerira, então que a brincadeira fosse até o fim. Pedi uma caneta, e assinei o contrato. Só que quando acordei descobri que eu não tinha ingerido nenhuma droga no bar, eu continuava com aquele novo emprego, e agora era um caçador de fantasmas.
Não me lembro de como voltei à pensão depois daquilo. Porque parece que fui tragado por uma escuridão e um frio tão intensos que era como se alguém tivesse me trancafiado em um freezer lacrado. Quando acordei era manhã, o sol incomodava minha vista entrando pelas frestas da persiana quebrada e a dona da pensão onde eu vivia batia insistentemente à porta do meu quarto.
Eu estava de cueca, então me apressei a colocar a calça jeans suja e rasgada de sempre, abri a porta e me deparei com uma dona Maria Francisca brava e agitada.
- Pensei que tinha morrido, está trancado aí há três dias. Amanhã vence o aluguel, espero que se lembre disso. Hoje de manhã o caminhão do sedex lhe trouxe uma encomenda – depois abaixando a voz esganiçada, a velha de cabelos brancos desgrenhados completou – se estiver trazendo muamba para minha pensão, juro que vou denunciá-lo para a polícia.
Não me dei ao trabalho de responder, peguei a caixa pesada e comprida que ela empurrava para dentro do meu quarto e bati a porta, trancando-a novamente, enquanto dona Maria continuava a resmungar palavras de baixo calão para mim.
Eu me lembrava do contrato como se fosse um pesadelo. Até aquele momento eu ainda acreditava que tivesse sido efeito de alguma droga. Mas descobri que não quando vi o conteúdo da minha encomenda. Era uma caixa de guitarra, novinha em folha, com diversos apetrechos esquisitos dentro, um manual de utilização e uma carta de boas vindas. Anexo à carta estava minha primeira missão.
Os apetrechos eram equipamentos mágicos para localização, caça e captura de fantasmas, coisas que eu nunca tinha visto antes, e seriam bem assustadoras se eu fosse alguém medroso.
Li o manual inteiro. Bom, eu não tinha sonhado, tampouco tinha me drogado. Eu era um caçador de fantasmas homologado pelo quintos dos infernos e deveria ir atrás do meu primeiro fantasminha. Que não seria nada parecido com o Gasparzinho dos desenhos animados.
Li a ficha dos crimes que cometeu em vida. Ele era professor universitário, tinha o estranho hábito de seduzir alunas, com um perfil específico: aquelas que faltavam às aulas para beber nos bares ao redor da faculdade. Se o cara parasse por aí, estaria tudo numa boa. Mas depois que as seduzia, levava-as para uma casa onde mantinha seus brinquedinhos. Ele as trancafiava em um gigantesco aquário com grades na abertura de cima, onde ficavam amordaçadas, já com algum tipo de mutilação, como por exemplo ter o dedo arrancado com um alicate enferrujado e sem corte, e, diversas escoriações. Depois ele abria uma torneira de onde saia um pequeno filete de água. Essa água, lentamente enchia o aquário, até dez centímetro antes da borda, o que deixava um pequeno espaço para as alunas continuarem a respirar. Esse aquário ficava assim por algum tempo, o suficiente para elas começarem a perder as forças. Então ele enchia o lugar com soda cáustica. Um estranho e trágico prazer, de vê-las se desfazendo com muita dor e crueldade.
Apesar de meu empregador dizer que eu tinha uma mente tão cruel quanto a dos fantasmas que eu caçaria, me deu náuseas imaginar uma morte daquelas. Continuei lendo. O cara tinha sido preso pela polícia humana, cumprira sua sentença em um hospital psiquiátrico até a morte. Agora a lei se cumpriria em outro plano. Eu precisava encontrar o fantasminha-camarada e entregá-lo para ser torturado e devorado por Baltazar.
Acho que num acesso de nervoso comecei a rir. Ri até esgotar todas as minhas forças. Depois decidi que seria algo interessante. Caçar fantasmas era algo que jamais imaginei poder acontecer de verdade. Coisa possível somente em comédias de Hollywood.
Peguei minha caixa de guitarra, e fui ao endereço do hospital psiquiátrico onde o velho morrera. A viagem seria longa. Meu patrão me enviara dinheiro suficiente para chegar ao lugar, comer alguma coisa, cumprir minha missão e ir para qualquer outro lugar que me desse na telha. Algo me dizia que eu jamais voltaria para a antiga pensão da dona Maria Francisca, então fiz o que qualquer cara descente faria, paguei o que lhe devia e fui embora, para nunca mais voltar. Esqueci-me do velho a quem eu cuidava. Abandono de emprego era a menor de minhas preocupações nesse momento.
Foi uma viagem curta e tranquila. Quando cheguei ao endereço indicado, descobri que o lugar tinha sido incendiado há alguns anos. Não havia mais nada ali, somente escombros. Como já tinha devorado aquele maldito manual umas três vezes, resolvi que seria melhor voltar a noite, quando o contato com fantasmas era mais propício. Fiquei num boteco jogando sinuca e bebendo, até perto da meia-noite. Eu era um forasteiro naquela cidade, então, tentei ser o mais discreto possível, para não arrumar confusão.
Depois de pagar ao dono do bar que me olhava de esguelha, voltei ao hospital. Dentro da caixa de guitarras tinha diversos apetrechos, que eu usaria como ferramentas de trabalho. Peguei um frasco que continua um liquido viscoso marrom, bebi um gole daquilo. O gosto amargo me fez lembrar bílis, que eu vomitava sempre que bebia demais. Depois peguei uma vasilha que parecia uma panela velha sem cabo e derramei água limpa dentro. Seguindo todas as indicações do manual. Sentei ao lado da panela velha, bem no meio dos escombros do hospital destruído pelas chamas, e fiquei aguardando que alguma coisa acontecesse. Apesar do manual falar que o efeito seria em quinze minutos, ouso dizer que comigo demorou quase trinta.
Então a água da panelinha começou a transbordar, começou a encharcar tudo ao redor como se uma torneira tivesse sido aberta lá dentro, com uma gigantesca vazão de água. E antes que eu pudesse sumir daquele lugar, eu estava imerso na água, quase me afogando, por não saber nadar. Fechei os olhos me debatendo, e quando os abri novamente eu estava debaixo de um chuveiro em um banheiro completamente vazio, muito amplo e com azulejos brancos forrando o chão e as paredes, até o teto.
Eu tinha sido transportado até o espectro do antigo hospital. Ali eu encontraria meu fantasma. Apesar de estar todo molhado, recolhi minha mala de guitarra e sai do banheiro. Onde eu poderia encontrar um doente mental assassino, num lugar repleto de pessoas assim? Ou de fantasmas assim. Afinal, dentre tantos, apenas um seria o escolhido do meu patrão. Comecei a caminhar pelos corredores, atento a qualquer coisa estranha. E só tinha coisas estranhas ali. Pessoas com cabeça decepada, vestidas com avental branco de hospital, caminhando tranquilamente pelos corredores incólumes. Uma senhora com metade do corpo queimado, que me cumprimentou gentilmente. Uma enfermeira sem braços, de onde pendia nervos e tendões, ainda sangrando.
Visões aterradoras, que me fizeram repensar se esse era mesmo o emprego dos meus sonhos. Então uma bela jovem loira, com os lábios costurados e muito arroxeados me alcançou. Seu olhar fundo era absolutamente deprimente. Ela não conseguia falar nada, mas estava claramente tentando se comunicar comigo. Puxou-me pelo braço e me levou até uma sala de cirurgia.
Vários médicos queimados circulavam a mesa de cirurgia, repetindo uma operação que provavelmente nunca fora concluída. Sob a maca cirúrgica estava um velho careca, com o dorso aberto, para algum tipo de operação cardíaca. Os ossos expostos me davam uma sensação de náusea. Que diabos eu estava fazendo ali afinal?
Que loucura. Que tipo de droga havia naquele líquido viscoso com cor de bosta e gosto de bilis? Que tipo de alucinação eu estava tendo? Mas a moça não parecia se importar com meu mal-estar. Ela me puxou e mostrou quem era o velho. Entregou nas minhas mãos a ficha médica dele e li seu nome. Ele era meu fantasma. Então era isso. Durante sua cirurgia cardíaca o hospital fora incendiado, e ele morrera nesse ínterim, junto com aqueles médicos e outros internos do hospital.
Foi aí que reparei na moça. Se aqueles fantasmas todos estavam presos à situação à qual morreram, o que uma moça de boca costurada estava fazendo ali? Com certeza não devia existir ninguém com boca costurada em um hospital. Isso era completamente fora dos padrões médicos, ainda que ela tivesse sido uma interna. Então reparei que apesar de todo mundo estar usando aventais hospitalares, ela vestia uma calça jeans e uma regata branca. Olhei para suas mãos e vi que lhe faltava a ponta dos dedos. Os tocos que lhe restavam estavam repletos de sangue pisado seco, com os ossos e os tendões dos dedos esmigalhados. Então entendi quem ela seria. Era alguma das vítimas do velho, que por algum motivo estava ali com ele.
Peguei o papel onde eu lera todo o histórico do velho, para ver se havia alguma indicação sobre os crimes. Aquela moça não tinha sido derretida com ácido, caso contrário ela teria marcas disso, então quem era ela? Grampeado com o papel que Baltazar e enviara, tinha um recorte de jornal, onde li uma notícia que me surpreendeu. Eu tinha visto aquele pedaço de jornal amarelado, mas não achei que seria importante, porque o que realmente me importava já estava no primeiro papel. A foto da moça estava estampada, bem pequena, em preto e branco. Ela tinha sido bonita em vida. A pequena reportagem dizia:
“Karen Schimitd, filha do professor Sam Schimitd, da Universidade Federal Central, foi encontrada essa manhã, seus lábios estavam costurados e as pontas dos dedos arrancados com alicate. A jovem estudante de dezenove anos não tinha vícios, e ia ingressar na universidade no próximo verão. A família prefere não fazer qualquer declaração. A policia investiga a possibilidade de um crime passional”.
- Então você é filha do velho? – perguntei baixinho como se temesse que algum fantasma me escutasse, ela balançou a cabeça afirmativamente – foi ele quem fez isso com você? – ela novamente confirmou, mas dessa vez os olhos cheios de lágrimas.
Bom, então estava na hora desse velho cumprir o restante de sua sentença. Ignorando o olhar reprovador dos médicos que acreditavam que eu estava atrapalhando sua cirurgia, abri minha mala de guitarra e saquei de lá de dentro algo que imaginei ser uma arma. Era cilíndrico, feito de cobre, parecido com um cano de quase oitenta centímetros de comprimento. Era lacrado de um lado e com uma tampa do outro. O tubo inteiro era criptografado com símbolos que eu nunca vira na vida. Provavelmente uma escrita demoníaca, ou algo do gênero. Seguindo as instruções do manual, abri a tampa e chamei meu fantasma pelo nome - Sam.
Ele olhou assustado para mim, então vi o que eu tinha em comum com qualquer assassino serial. Eu era tão frio quanto eles. Meus olhos eram parados e vazios. Minha expressão era tão cruel quanto a daquele velho que matara a própria filha torturando-a. Eu tinha o mesmo medo inconsciente de algo que me avisava internamente de perigos iminentes. E desafiava meus medos exatamente como aquele velho estava fazendo agora, sentando na maca com o tórax exposto.
Eu era uma alma tão perturbada quanto ele. Mas eu jamais torturaria ou mataria quem não merecesse. O que não era o caso agora. Ele merecia toda a dor que eu pudesse infringir-lhe. Mas o que sucedeu com certeza não causou nenhuma dor ou aflição. Ele foi sugado para dentro do tubo metálico instantaneamente, como se fosse poeira puxada por um aspirador de pó. Quando o cano de cobre terminou serviço, a linda Karen abriu um sorriso aliviado, a linha que costurava seus lábios se soltou e ela evaporou. Aliás, tudo ao meu redor evaporou. O hospital, os médicos, a ala cirúrgica. Tudo se desfez em fumaça, como se jamais tivesse estado ali.
Olhei ao redor e vi que não sai do mesmo lugar onde fiquei esperando o efeito do liquido marrom. Estava de pé, com o cilindro na mão, ao lado do bloco de concreto em que estivera sentado, em meio aos escombros do hospital psiquiátrico destruído pelas chamas.
Foi tudo tão rápido e fácil que cheguei a me surpreender. Mas não tive muito tempo para pensar naquilo. Uma névoa gelada e escura começou a subir do chão serpenteando, como se fosse a fumaça do hospital, após o rescaldo.
A névoa logo se transformou no meu patrão, que sorria satisfeito, estendendo as duas mãos para mim. Uma para pegar o cilindro, e outra para me entregar um envelope de papel pardo. Fizemos a troca mecanicamente, sem trocar palavras de qualquer tipo. Eu ainda estava assustado, e temeroso porque tinha sido tudo fácil demais. Nunca imaginei que caçar fantasmas era algo tão simples assim. Apontar um cano pro cara e ele ser sugado igual pó.
Enquanto eu bisbilhotava o interior do envelope, vi o chefe devorar o fantasma. Claro que hoje isso já não me assusta mais, mas naquele momento me trouxe certo desconforto. Ver Baltazar assumir sua verdadeira forma de demônio, enfiar o cilindro na garganta e engolir os fantasmas como  água fresca, enquanto eles se debatem gemendo e gritando de horror, é quase algo redentor, afinal, sei que estou fazendo algum tipo de justiça pelas almas que sofreram nas mãos daqueles assassinos. Então, toda vez que caço sinto o prazer de vê-los sendo digeridos como rosquinhas, desesperados com seu destino eterno, enquanto sua alma degenerada é sucumbida finalmente.
Enfim, não sou igual a eles. Sou bem pior.
Guardei o conteúdo do envelope na mala de guitarra: cartão de banco, minha via do contrato, vale-refeição para compras no mercado e minha carteira de trabalho assinada.

Essa caçada foi a mais fácil de todas! Aquela que serviu apenas como teste de emprego, para ver se eu dava conta do recado. 
 
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